Sinais de alerta: A autoridade

Para se ter uma atitude céptica e defender a ciência, não é necessário ser-se cientista. Muito longe disso!

Para além das ferramentas inerentes ao pensamento crítico, há vários sinais que nos podem alertar para alegações de origem pseudo-científica. Aquele mais óbvio e que nos deve levar a procurar mais informação e fazer mais perguntas é o já mencionado ditado “Quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Mas existem outros mais específicos com os quais nos deparamos facilmente no nosso dia-a-dia.

Carl Sagan chamou-lhe “O kit de detecção de tretas” e há várias versões para esta lista de sinais de alarme. Aqui fica a minha, dividida em várias partes.

1. Apelo à autoridade

A veracidade de uma alegação não depende de quem a diz ou defende mas dos factos que a sustentam. Contudo, o uso de figuras de autoridade é das estratégias mais utilizadas na promoção de falsa ciência ou pseudo-ciência…e também, há que dizê-lo, da ciência.
A “autoridade” pode ser um especialista na área (ou fora dela), uma figura mediática que nada tem a ver com a alegação em causa, ou simplesmente alguém com sinais externos de autoridade.
Por exemplo:
a) Na promoção da homeopatia e de outras pseudo-medicais é muitas vezes usada a figura de Luc Montagnier, prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 2008 (em conjunto com Harald zur Hausen e Françoise Barré-Sinoussi) pela descoberta do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Luc Montaigner é apontado no meio céptico como um dos casos de “Doença do Nobel” – quando premiados com o Nobel acabam depois por promover ideias falsas e perigosas. Por exemplo, Montaigner defendeu num encontro de negacionistas da ciência e promotores de pseudo-ciência que o autismo é provocado por bactérias e que o ADN emite radiação electromagnética. Claro que os promotores do dito encontro ficaram muito contentes por dizerem que tinham como convidado, e aliado, um Prémio Nobel, usando a sua figura para promover todo um conjunto de charlatanices mais ou menos perigosas (quiçá a mais perigosa, a anti-vacinação).

Luc Montaigner
Luc Montaigner na Lindau Nobel Laureate Meeting em 2010. (Crédito: gedankenstuecke via VisualHunt.com / CC BY-SA)

b) Basta sintonizar as nossas televisões para os canais generalistas durante as manhãs e tardes para sermos inundados de publicidade (mais ou menos mal disfarçada) a toda uma panóplia de suplementos alimentares promovidos como se de medicamentos se tratassem por celebridades nacionais. O exemplo mais recente é o uso da figura da cantora e actriz Simone de Oliveira para a venda de Calcitrin:

Por causa deste anúncio, a Ordem dos Farmacêuticos apresentou uma queixa contra a empresa que o comercializa, a Viva Melhor, por entender que “faz promessas sem base científica”. Simone de Oliveira não é cientistas nem especialista em doenças de ossos, mas é alguém com quem o público-alvo da publicidade se identifica e, assim, é usada como “autoridade” para recomendar e vender o produto. Quando, para a venda de um produto relacionado com a saúde, se recorrem a celebridades, esse é um sinal de alerta!

c) Uma simples imagem de alguém com bata branca leva-nos a pensar em médicos, cientistas, em suma, figuras de autoridade. Geralmente, em anúncios publicitários, tal como na imagem abaixo, tratam-se simplesmente de actores pagos para encarnar essa autoridade implícita (ou vendedores que querem ter um “ar” de cientista ou de alguém relacionado com a medicina).

Homem de bata branca
Um cientista ou um actor numa imagem de stock?

O apelo à autoridade é uma falácia lógica muito comum e aplica-se tanto a pessoas como a instituições. Mas as “autoridades” também cometem erros, enganam-se e enganam! Em ciência, existem especialistas, mas não autoridades: o que quer que um especialista diga, mesmo dentro da sua área, estará sempre sujeito à crítica e à revisão, desde que apresentadas provas.

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3 thoughts on “Sinais de alerta: A autoridade

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